* Esta palestra foi gravada em casa durante o início da pandemia e dada em um evento TEDx online usando o formato de conferência TED, organizado de forma independente por uma comunidade local no Rio de Janeiro. Saiba mais em https://www.ted.com/tedx

Gustavo Nogueira nos convida a fluir através do tempo, nos mostrando como as pessoas se relacionam com o tema do momento presente, individual e coletivamente. Gustavo Nogueira de Menezes acredita no poder de navegarmos por mudanças juntos. Vivendo em Amsterdam desde 2017, Gustavo fundou a Torus, um laboratório que estuda e pesquisa o tempo e como as pessoas se relacionam com o tema no momento presente, individual e coletivamente.

O que significa fluir? Verbo intransitivo. Quando [um fluido] corre através de algo. Ou emerge dele. Como o sangue que flui em nossas veias. Ou quando, de forma fácil e abundante, emergem sentimentos do peito, ideias da mente, palavras da boca e das mãos ação. A própria palavra fluxo nos dá a resposta. Quando algo flui, significa que ele está em movimento; portanto se o tempo é medida da mudança, estamos fluindo junto com o tempo. Mergulhados em tempos de incerteza rumo ao que seremos – e o que queremos ser – depois. Fluir um novo mundo, uma nova terra, é também fluir um novo tempo. Vem comigo, que eu vou te convidar a questionar, individual e coletivamente, como está a nossa relação com o tempo.

"A massa de um buraco negro desacelera o tempo a tal ponto que, em suas fronteiras (chamadas 'horizonte'), o tempo permanece parado. Portanto, para sair de um buraco negro, você precisa se mover em direção ao presente e não em direção ao futuro." — Carlo Rovelli, físico italiano autor de 'A Ordem do Tempo'

Se mover em direção ao presente.

Pode parecer impossível, mas estas são as palavras do Carlo Rovelli, um físico italiano com quem eu aprendi ao ler seu livro “A Ordem do Tempo”. Ao enfrentar um evento massivo – como o que estamos vivendo em nosso planeta agora – a solução não está no esforço de tentar prever o futuro, se preparar para o que vamos encarar meses a frente, ou ainda nos próximos anos. Antes disso, está no que vamos fazer de concreto no presente. Concentrar-se em como fluir no agora.

Hoje a gente fica se forçando pra tá sempre informados, estimulado, em um ritmo que não é sustentável nem produtivo. Uma verdadeira ‘infodemia’, como foi denominado pela OMS, uma quantidade excessiva de informações sobre um problema que dificulta a solução. É tanta gente querendo saber qual é a próxima tecnologia, a próxima moda, o próximo assunto que vivemos uma espécie de ressaca do futuro. Mas essa não é a única relação possível com o tempo.

Na mitologia da Grécia Antiga, por exemplo, existia o impiedoso Chronos, titã que representava o tempo do relógio que a tudo controla. Mas também havia Kairós, cuja tradução é “momento oportuno”. Um tempo sutil, subjetivo, que representa a nossa percepção individual e intransferível da passagem dos dias. Diante da sensação de que o ano começou voando e tende a acelerar, é importante compreender que não precisamos — ou melhor, não devemos — seguir o mesmo compasso.

Como está a sua relação com o tempo?

Enquanto a humanidade enfrenta momentos de incerteza, a grande pausa, parece que todo mundo quer conversar, mas as palavras não estão sendo suficientes. Parece que falta vocabulário para lidar com tempos de incerteza, né? Por exemplo: antes disso tudo você encarava seus medos e desejos em relação a um futuro em rápida mudança. E aí tudo mudou de novo… Existe algum caminho de volta aos tempos que conhecemos como normalidade? Ou aqueles dias serão para sempre encarados com alguma saudade e então percebidos como parte do problema que nos trouxe até aqui?

Essas perguntas que agora nos fazemos nos mostram que vai ser necessário um novo tipo de habilidade para respondê-las. Novos códigos culturais, novos comportamentos, novos combinados. Vai ser como aprender um novo idioma que possa nos ajudar a ver a realidade de

novas maneiras. Sentir o que a nossa realidade era, o que ela está sendo e o que pode ser. Um convite a (re)pensar a nossa relação com o tempo como planeta. E eu sinto que pra isso vamos precisar desenvolver algo que eu chamo de inteligência temporal.

A linguista Lera Boroditski diz que a nossa linguagem molda a maneira como percebemos a realidade. Qual palavras você usa para descrever a sua relação com o tempo? Aliás, ela me lembra muito a personagem principal do filme de ficção ‘A Chegada’, com a atriz Amy Adams, em que um time de pesquisadores tentam desvendar um idioma alienígena que parece ser a chave para percebermos passado, presente e futuro de um jeito completamente novo.

Mas o que afinal é o tempo?

O filósofo grego Aristoteles sugeria que Tempo é a medida da mudança. A medida que nós experienciamos o tempo, compreendemos que o mundo vive um processo de transformação que não para nunca. Ainda pelas lentes da ciência, a evolução nos sugere que a melhor gramática para pensar sobre o mundo é a da mudança, não da permanência. Não o que somos, mas o que estamos nos tornando.

O mundo não é uma coleção de coisas, mas sim de eventos. A diferença entre coisas e eventos é que coisas persistem no tempo, enquanto eventos acontecem com uma duração limitada. Portanto, temporário. Mas não há o que não seja relativo ao tempo. Que não exista imerso nele. Mesmo algo monumental como as pirâmides no Egito que existem desde a pré-história, já foram só blocos de pedra há muitos anos, talvez essas pedras já foram um meteoro; e um dia talvez vão ser somente areia. Elas são apenas um evento mais duradouro que nós, humanos, mas ainda assim um evento.

Navegamos a mudança, pois tudo é temporal.

O filósofo George Santayana diz que aqueles que esquecem o passado estão condenados a cometer os mesmos erros.

Yuval Harari, sendo historiador e futurista, também propõe um olhar para o século 21 a partir dos seus estudos sobre o nosso passado e potencial futuro. Ele alerta que “se o futuro da humanidade for decidido em sua ausência você não estará eximido das consequências. Isso é muito injusto, mas quem disse que a história é justa?”

O neurocientista Dean Buonomano diz que o nosso cérebro é uma verdadeira máquina do tempo, nos transportando por memórias ou projeções enquanto não estamos vivendo no momento agora.

O autor Daniel Pink escreveu que encontrar o timing certo de se ocupar com algo – ao invés de se PREocupar – é realmente uma ciência porque nossas vidas são um fluxo interminável de decisões não só de “como” fazer, mas também “quando”.

O psicólogo Philip Zimbardo diz que cada um de nós dá uma atenção mais positiva ou negativa para o seu passado, presente e futuro. E que o melhor mesmo é encontrar um balanço entre esses tempos.

Mesmo a moeda do tempo atual não é mais uma moeda, mas sim o próprio tempo. Quantas horas você tem que trabalhar para pagar a última compra importante que você fez?

Entre abordagens da filosofia, física, psicologia e economia, entender as interseções entre essas diferentes lentes é o meu trabalho. E eu sinto que é algo necessário para desenvolvermos uma perspectiva mais holística sobre nossa relação com o tempo.

Eu vivo o tempo em um fuso horário diferente dos meus conterrâneos brasileiros. Eu nasci em Belém do Pará, mas eu moro em Amsterdam e aqui eu vivo ao longo do ano há cerca de 5 horas “no futuro”. Eu me dedico a pesquisar e estudar o tempo em seu espectro completo. Eu lidero a Torus, um laboratório de estudos do tempo, onde questionamos como as pessoas entendem o tempo e se conectam com ele, individual e coletivamente.

Para falar sobre a minha relação com o tempo eu vou te apresentar esse artefato, chamado: Torus. Se eu desenhar ele em uma folha de papel, você provavelmente vai ver um oito deitado, e aí vêm várias referências sobre algo se repetindo infinitamente. Algumas culturas chamavam essa símbologia de Ouroboros, a serpente que morde o próprio rabo. No entanto a nossa visão é limitada pelo fato de que o símbolo em duas dimensões, desenhado no papel, representa algo com mais dimensões. Nessa forma toroidal, em 3 dimensões, compreendemos que não estamos repetindo a mesma trajetória, mas sim explorando todas as possibilidades. Múltiplos passados e futuros que convergem e podem ser acessados pelo mesmo ponto. O presente.

Como mudar a sua relação com o tempo?

As vezes é preciso abdicar de tanta informação e manter o foco em continuar se movendo no presente. Prestar atenção no que está mudando em você. Em como você está se sentindo. Deixar de lado esse olhar minucioso aos detalhes do passado e futuro, e se concentrar no que liga um fato ao próximo e então ao seguinte. Você vai perceber quando atingir esse modo. Navegadores e exploradores de diversas áreas chamam esse momento de “fluxo”. Sabe quando você está fazendo algo que gosta e parece que o tempo “voa”?

Depois disso, quando você escolher pensar sobre o futuro, antes disso se volta duas vezes mais longe ao passado pra compreender como você chegou até aqui, de novo no presente. Você sabe onde almeja chegar, mas o quanto você conhece sobre o seu ponto de partida? Esses dois tempos podem ter mais em comum do que você imagina.

Quando a gente se aprofunda em todo o caminho percorrido até aqui é que alcançamos essa compreensão de onde estamos hoje. E aí transformamos o momento presente no nosso ponto de partida para a nossa própria viagem no tempo.

Vira-Tempos, Tardis, DeLoreans… São muitas as representações que aproximam ficção e nossa realidade, mas a melhor comparação que eu poderia fazer agora vem série clássica Cosmos, Carl Sagan explorava o espaço-tempo em sua nave, The Ship of Imagination. No mundo real, máquinas do tempo são conceitos que passam a existir a partir do momento em

que nós as imaginamos. Eu acredito que essa é a mais importante lição: máquinas do tempo são conceitos teóricos, inventados para possibilitar a viagem pelo tecido espaço-temporal. Invente a sua. E, ao viajar no tempo, se não encontrar no momento seguinte o futuro que esperava, você pode criar novos.

Tem um conto do escritor Neil Gaiman, sobre um personagem que gosto muito, o Destino. Destino é uma entidade que existe desde o início dos tempos e vai estar por aqui até o final. Ele tem acorrentado a suas mãos um livro que contém a história de tudo que já viveu, vive e viverá no universo. No entanto ele é cego. Todos os dias pela manhã ele sai do castelo para passear em seu jardim... que é um labirinto. Ao longo do dia ele faz curvas, erra, volta, entra por caminhos estreitos, largos, e segue o mais longe possível. Ao fim do dia, ao olhar para trás, não há mais labirinto, tudo que ele vê em seu jardim é uma linha reta. O seu caminho.

Todos nós somos como Destino. A gente não entende porque fomos parar ali, porque aquela ação ou algo nos levou para aquele fato, pra aquele sentimento. Atribuímos isso a energias externas, que tomaram essa escolha por nós. Que nos fizeram entrar naquele labirinto. E quando a gente direciona o nosso tempo em pensar sobre essas forças externa que nos causam desconforto, a gente acaba criando essa entidade que toma escolhas por nós. Mas ela não é mais forte que você. De novo, é o seu caminho. São as suas escolhas.

Você pode criar o futuro que você quiser a partir dos próximos passos aqui no presente. Seu próprio caminho. E esse futuro não precisa te pressionar a fazer mais. Ser produtivo talvez seja uma ideia daquele tempo que a gente disse que pode ser parte do problema, lembra?

Respira. Você só precisa ser você.

Com essa visão ampla, agora está ficando explícito na Terra e também dentro de nós: nossos problemas são sistêmicos. Em um sistema, nossas contribuições e necessidades individuais também devem considerar os benefícios e impactos coletivos. Para acordar como uma mesma consciência planetária, é hora de mergulhar profundamente em nós mesmos e encontrar ressonância um com o outro. Vai parecer ainda mais escuro, bem possivelmente. Mas as sombras são projeções do mesmo ser se movendo em direção à luz. O único caminho é através. E é necessário estarmos abertos ao que pode surgir do outro lado. Estamos aprendendo a viajar no tempo juntos, em direção ao próximo nível da nossa consciência planetária.

Eu acredito que se você e eu estivermos em conexão com o tempo – conscientes dos passados e futuros que influenciam e são influenciados pelo que somos e sentimos aqui no momento presente – e com a gente desenvolvendo a nossa inteligência temporal, vamos aprender a navegar as mudanças juntos. A ressoarmos rumo a uma sociedade criativa, ecológica, justa. A fluir no tempo.

Para não falar de viagem no tempo sem citar Doctor Who, “Nenhum de nós sabe o que existe lá fora. É por isso que continuamos procurando. Mantenha sua esperança. Viaje esperançosamente. O universo vai te surpreender. Constantemente.” Por isso eu te recomendo a mergulhar na busca do que dá sentido à sua viagem. Aproveitá-la ao máximo, inventar a sua máquina do tempo, e então criar o futuro que você almeja alcançar, um presente de cada vez.

Isso é o essencial. Agora você está preparado para começar.

Boa viagem.